Projeto: Caprinos e Abelhas

Caprinos e Abelhas

Coordenador: Dorgival Morais de Lima Junior

Contato: [email protected]

Valor Total Conveniado: R$ 400.000,00

Implantação de Unidades demonstrativas de cadeias produtivas adaptadas ao semiárido (Caprinocultura e Meliponicultura) com foco na mitigação da desertificação na região e na inclusão social e produtiva de comunidades resilientes com a seca.


O semiárido nordestino ocupa cerca de 973000km², abrigando nove estados brasileiros e com 96% do rebanho caprino nacional, totalizando 12,9 milhões de cabeças, segundo o IBGE (2023). Essa expressiva presença de caprinos evidencia a centralidade da caprinocultura na economia familiar. A criação de caprinos, adaptada ao clima adverso, favorece a subsistência e a fixação rural das comunidades de fundo de pasto, reduzindo a migração rural–urbana e fortalecendo as relações sociais locais (IBGE, 2023; FELISBERTO et al., 2023). Já a meliponicultura vem como atividade que complementa a renda do pequeno e médio produtor rural, ao produzir produtos de alto valor comercial e agregar ao sistema produtivo, polinizadores por excelência, que irão aumentar a produção de frutos e sementes seja em sistemas manejados ou sistemas mais extensivos (Carvalho 2019 ).

O clima semiárido apresenta chuvas abaixo de 800mm anuais e longos períodos de seca, o que exige estratégias de manejo inovadoras, como a integração com espécies forrageiras nativas e suplementações estratégicas (EMBRAPA, 2022). Felisberto et al. (2023) indicam ganhos de produtividade em até 30% com uso de palma e umbuzeiro, sem comprometer a Caatinga, o que reforça a ideia de sistema agroecológico resiliente e sustentável. Nesses sistemas, abelhas entram como fundamentais, aumentando a produtividade através da polinização (Potts et al 2016).

A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e hospeda cerca de 5.300 espécies vegetais e 1.300 espécies animais, adaptadas à aridez (EMBRAPA, 2022). As pastagens nativas da Caatinga são essenciais para a alimentação do gado durante períodos secos. Rogério et al. (2020) mostram que o manejo equilibrado dessas espécies sustenta até 45 caprinos por hectare, reduzindo custos e preservando a biodiversidade. Pastagens nativas manejadas também fornecem flores para abelhas(Santos et al 2026 ), e desenvolver um sistema de consórcio entre pastagem apícola/meliponicula e cripino/ovinocultura pode ser bastante lucrativo e sustentável, em logo prazo.

Comunidades de fundo de pasto consistem em famílias tradicionais sem posse formal de terra, que utilizam coletivamente as áreas da Caatinga. Santos et al. (2020) destacam que elas mantêm relações comunitárias e de uso sustentável dos recursos, preservando saberes tradicionais e resistindo às pressões de mercado por terras. Gestões participativas dessas áreas favorecem a mobilização social e o fortalecimento econômico comunitário. Estudos como o do projeto Recaatingamento (BA) envolveram 35 comunidades de fundo de pasto na restauração de 40000ha, conciliando criação de 1.800 caprinos e cultivo de palmas e sorgo para ração, apicultura, meliponicultura e agrofloresta. Estes esforços comunitários reduziram a pressão sobre terrenos nativos e favorecem a recuperação de áreas degradadas, apresentando modelo eficaz de restauração integrada.

A desertificação no semiárido decorre da combinação de uso predatório do solo, clima adverso e desmatamento; estudos indicam que cerca de 13% dos solos na Caatinga estão seriamente degradados e estimulam o processo de salinização e perda de fertilidade (Mongabay, 2023). A adoção de pastagens nativas bem manejadas e sistemas silvipastoris contribui diretamente para a recomposição da vegetação e a estabilização dos solos.

A caprinocultura leiteira no Nordeste produz cerca de 18 milhões de litros por ano, em 15.720 propriedades, gerando renda significativa para pequenos produtores (IBGE, 2023; FELISBERTO et al., 2023). No Cariri paraibano, 7,4 milhões de litros são produzidos, resultando em R$ 10,4 milhões de renda anual (MORAIS et al., 2024). O uso de insumos nativos reduz custos, fortalece o mercado local e aumenta o valor agregado dos produtos. A produção de carne caprina também cresce no semiárido: entre 2020 e 2023, o rebanho maranhense aumentou 17%, alcançando 580 mil cabeças e gerando 1,4 mil toneladas de carne (IBGE, 2023). Essa diversificação de produtos proporciona segurança alimentar e abre mercados para pequenos produtores, reduzindo riscos da sazonalidade e expandindo oportunidades econômicas.

A meliponicultura, prática de criação de abelhas sem ferrão nativas, tem se destacado como uma importante estratégia de desenvolvimento sustentável no semiárido brasileiro. Espécies como Melipona subnitida (jandaíra) e Melipona mandacaia, altamente adaptadas ao clima seco da Caatinga, desempenham papel crucial na polinização de plantas nativas, fortalecendo a biodiversidade local. Segundo a Embrapa (2022), essas abelhas polinizam mais de 90% das espécies da Caatinga, contribuindo para a regeneração natural e para o equilíbrio ecológico. A prática exige baixo investimento inicial, utiliza recursos locais e pode ser associada a sistemas agroflorestais, aumentando a produtividade agrícola por meio da polinização cruzada (GEMIM; SILVA, 2017).

Além dos benefícios ambientais, a meliponicultura representa uma fonte real de renda para comunidades tradicionais, como as de fundo de pasto. Iniciativas como o projeto “No Clima da Caatinga” capacitaram mais de 400 famílias e distribuíram mais de 380 enxames, resultando em aumento médio de até 30% na renda familiar (ASSOCIAÇÃO CAATINGA, 2024). O mel das abelhas sem ferrão tem alto valor de mercado, sendo comercializado por preços que variam entre R$ 150 e R$ 300 o litro, especialmente quando certificado como orgânico ou artesanal (UNGERN-STERNBERG, 2024). A coleta não compromete a saúde das colônias e pode ocorrer em paralelo a outras atividades agropecuárias, garantindo diversificação de renda com baixa pressão sobre o ambiente.

Nas comunidades de fundo de pasto, que vivem do uso coletivo da Caatinga, a meliponicultura tem fortalecido a autonomia econômica e a valorização dos saberes locais. A prática permite o envolvimento de mulheres, jovens e idosos, promovendo inclusão produtiva e equidade de gênero. Ao articular tradição e inovação, essas comunidades preservam a biodiversidade, aumentam sua segurança alimentar e reduzem a dependência de políticas assistencialistas. O meliponário, ao ser instalado de forma integrada ao território, reforça a identidade cultural e ecológica dos grupos locais, como demonstrado por estudos de Gaivizzo et al. (2019) e EMBRAPA (2022), consolidando-se como uma alternativa eficaz e sustentável para o desenvolvimento do semiárido.

O manejo integrado da constitui um modelo territorial inovador. Ele promove produção rural sustentável, conservação ambiental e proteção contra a desertificação, ao mesmo tempo em que fortalece a renda familiar e reforça saberes comunitários. Este modelo representa uma via promissora para a convivência com o semiárido e o desenvolvimento rural equitativo.

 

INFORMAÇÕES IMPORTANTES

Unidade descentralizadora: MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E MUDANÇA DO CLIMA - MMA

Unidade descentralizada: UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO SEMI-ÁRIDO - UFERSA

Objeto: Implantação de Unidades demonstrativas de cadeias produtivas adaptadas ao semiárido com foco na mitigação da desertificação na região e na inclusão social e produtiva de comunidades resilientes com a seca.

Recurso oriundo de uma Emenda Parlamentar do Deputado Fernando Mineiro.